Cupuaçu: história, importância e perspectivas
Fotos: Ronaldo Rosa
De grandes fazendas a pequenas lavouras, mecanização ganha espaço e promete maior
eficiência e competitividade.
O cupuaçuzeiro é uma fruteira que se originou em terras paraenses e maranhenses. Apesar das
populações nativas terem sido muito afetadas no processo de derruba e queima da floresta para o
estabelecimento de pastagens e outras atividades agropecuárias, ainda restaram alguns resquícios
no Sudeste paraense. Nessa condição a planta é totalmente diferente das que encontramos nas
áreas cultivadas. Atinge mais de 30 m de altura, só perdendo para as espécies clímax como por
exemplo a castanheira e o mogno.
Os indígenas dessa região tinham no cupuaçu umas de suas frutas prediletas, tanto que, no
processo nômade de viver, levavam as sementes dos cultivos que mais lhe apeteciam, para plantar
no novo destino. Dessa forma, disseminaram as sementes de cupuaçuzeiro por toda a Amazônia. Hoje
pode-se encontrar árvores de cupuaçuzeiro em 112 municípios do Pará (total de 144), em condições
subespontâneas, graças a essa movimentação.
Os silvícolas também tiveram papel fundamental no processo empírico de domesticação da espécie,
visto que, escolhiam os frutos mais atraentes, de onde retiravam as sementes, para estabelecer
os quintais nas novas moradias.
Nessa época a oferta de frutos para comercialização era bastante restrita. Basicamente,
provinham dessas populações. Era no Ver-o–Peso e nas feiras livres, bem como, nos pomares
caseiros de casas urbanas, que nossos pais e avós conseguiam o fruto.
A situação começou a mudar na década de 1970, quando o cupuaçuzeiro passou a ser plantado como
uma cultura agrícola, especialmente pelos produtores de Tomé Açu. A oferta de frutos começou a
melhorar rapidamente, e o preço tornou-se mais atraente.
Com a ampliação dos cultivos, apareceram gargalos tecnológicos que demandavam pesquisas
imediatas. O grande complicador era que, por ser uma espécie perene, os resultados de pesquisa
só aconteceriam à longo prazo.
Coube ao IAN, IPEAN e depois Embrapa Amazônia Oriental e seus parceiros, dar início a criação de
tecnologias que tornaram esta cultura uma realidade. A adaptação das técnicas utilizadas no
cacaueiro foi a estratégia empregada para viabilizar o estabelecimento do cultivo do
cupuaçuzeiro. Nesse esforço de pesquisa, nomes como Benito Calzavara (1922-2011), Eurico
Pinheiro (1927-2011), Carlos Hans Muller (1947-2016), José Edmar Urano de Carvalho e Rubens Lima
(1918-2014), além de outros, tiveram papel primordial. Rubens Lima, por exemplo, foi o
responsável pela formação da primeira coleção de cupuaçuzeiro, estabelecida em Belém. Essa
coleção foi a fonte das primeiras cultivares resistentes a vassoura de bruxa, que foram
disponibilizadas aos produtores em 2002, pela Embrapa Amazônia Oriental, denominadas BRS Coari,
BRS Codajás, BRS Manacapuru e BRS Belém. Depois veio a BRS Carimbó, em 2012 e, por último, em
2023 as cultivares BRS Careca, BRS Fartura, BRS Duquesa, BRS Curinga e BRS Golias, componentes
do Kit Cupuaçu 5.0.
Assim, o cultivo do cupuaçuzeiro expandiu-se chegando a 12.000 ha no estado do Pará. Essas
estatísticas são muito inconsistentes em razão do tamanho continental do Estado e da
pulverização dos plantios. Essa desorganização da produção é uma das principais fragilidades da
cadeia. Como o fruto é perecível, necessita de uma agroindústria próxima para processa-lo. Não
havendo, o produtor fica à mercê do atravessador, que quase sempre não paga o preço
justo.
A renda advinda da comercialização dos frutos tem servido para complementar a receita da
propriedade, especialmente, dos pequenos produtores, que respondem por 95% da produção.
A visão econômica não é a única faceta benéfica da utilização do cupuaçuzeiro. Junto com o
cacaueiro, é uma das poucas espécies, com valor econômico, que tolera restrição de luz, em até
30%. Assim, molda-se com perfeição aos Sistemas Agroflorestais (SAFs), modelo de cultivo
imitador das condições florestais originais, que deverá ganhar cada vez mais importância com o
agravamento das mudanças climáticas. Portanto, essa espécie poderá contribuir na recuperação
produtiva de áreas alteradas, reflorestando-as, ao mesmo tempo que propicia condições dignas de
manutenção aos produtores envolvidos.
Graças as técnicas de cultivo desenvolvidas, e a disponibilidade de variedades de alta
produtibilidade, propagadas por sementes e por mudas enxertadas, o cupuaçuzeiro, juntamente com
o açaizeiro, é uma das poucas espécies nativas da Amazônia apta para ser cultivada em larga
escala, assim que o mercado se mostrar favorável para absorver seus produtos.